Como um ano passa rápido. Parece que durante este tempo eu nem existi. Mas eu estava aqui, vez ou outra me submetendo às minhas periódicas sessões de auto-flagelamento. Sinceramente, já não sobra quase nada. Eu pensava que tinha um plano para a vida mas a verdade é que eu fui ruim em quase tudo o que importa. Minha vida foi uma soma quase impossível de erros. Eu devia só ter tentado menos. Quando jovem, eu não devia ter fingido que tinha certeza de tudo, na verdade eu estava perdido. Eu devia ter almejado menos, visto menos, sonhado menos... talvez assim também tivesse errado menos. A verdade é que o tempo foi embora e não ficou orgulho de quem eu era. A minha maldição é essa porcaria de relógio sentimental quebrado que me martela até o ponto de eu não aguentar mais. Eu só sigo. Advinha? Novamente, errado.
Eu sou o nada...
8 de maio de 2026
10 de dezembro de 2024
Tempo
24 de junho de 2024
Dos Sonhos ou Pesadelos #1
Era uma escola ou talvez algo assim. Ensinavam música ou talvez algo assim. Havia uma janela no andar suspenso onde nos amontoávamos, escorados em uma mesa branca esquecida rente à parede. Estávamos em uma sala pequena, cercada por divisórias frágeis. Era noite e era possível ver o horizonte ao longe, por cima daquela fração da cidade. Víamos árvores e telhados, tudo bem escuro mas distinguível na forma de silhuetas, contrastando com as nuvens iluminadas por uma lua que não enxergávamos. Vestíamos camisetas verdes de um tom vivo, destas como se costuma ver em caixas de supermercado. Não parecíamos ser alunos, talvez fossemos funcionários em um momento de descanso, cerca de oito ou dez pessoas. Eram jovens, na maioria moças, alguns rapazes. Eu próprio era mais jovem do que sou hoje. O sorriso, a conversa, era tudo tão confortável. Mas eu sabia que dentre aqueles rostos havia apenas um sobre o qual a minha atenção orbitava. Mesmo quando eu olhava pra longe naquela janela, era o único rosto que eu via. Sob todos os detalhes dela eu me dobrava, me entregava sem resistir. Ela estava bem próxima, do meu lado esquerdo de onde escorávamos. Na nossa frente o vidro transparente da janela. O sentimento era aconchegante, aquela sensação parecia vir de um lugar já antes visitado. Ao lado dela pairava em mim a certeza de que haveria apenas um caminho dali em diante, de me sentir como a água de um rio que não escolhe pra onde ir. A atração por ela me deixava a sensação de estar voltando pra casa. De alguma forma eu sabia que era recíproco ou que, se ainda não fosse, inevitavelmente viria a ser. Era como se eu tivesse nascido e vivido até aquele momento apenas para estar ali. Eu não sabia o seu nome, eu não sabia nada além do que aquele sentimento materializado no meu corpo recitava no meu ouvido. Apesar de já ter estragado muitas coisas na vida aquilo seria grande demais, belo demais, sincero demais até para eu conseguir destruir. Ao seu lado eu não me sentia capaz de ser nada que não fosse, apenas e sinceramente, eu. Não havia medo, apenas o total e completo pertencimento. Poemas, livros, músicas... tudo seria muito enfadonho. Mesmo em um sonho, ela e eu éramos apenas reais.
De repente, uma luz no horizonte se formando a partir da linha em que os telhados encontravam o céu. Começou a crescer como se algum tipo de gás estivesse sendo assoprado pela terra em direção às nuvens. Brilhava como se fosse uma aurora austral. Cada vez mais e mais, todos perceberam. "O que é aquilo?" era a pergunta inevitável. "O que está acontecendo?". Ao mesmo tempo em que as cores lembravam o brilho que envolve bolhas de sabão, sabíamos que estávamos em perigo. Houve muita agitação. "O que é aquilo?". Avisaram aqueles que estavam em outras salas e logo chegaram na janela. "Parece ser algum gás, vai explodir". Olhei para ela, parecia perdida e assustada, foi a primeira vez que os nossos olhares decididamente se encontraram. Os nossos olhos uns nos outros pareciam um lugar comum, o bosque entre os nossos dois mundos. Eu daria tudo por mais tempo naquele lugar mas estávamos em risco. Busquei a mão dela como quem diz "Vem comigo, vamos sair daqui". Nada precisava ser falado. A coisa que mais me marca e me traz uma profunda tristeza é não continuar sentindo eternamente o toque entre as nossas mãos, tão vívido na lembrança. Dói saber que em algum momento não estará mais aqui. A pequena mão dela estava fria e procurando acolhimento, procurando um rumo. Percebi que, quando eu estendi a mão, a dela já vinha ao meu encontro. Era como se só existisse o caminho que as unia. Marchei em direção às portas e em direção ao lado oposto da construção em que estávamos, nos afastando da janela. Por onde passávamos, algumas pessoas continuavam em seus computadores, trabalhando, desapercebidos de tudo o que acontecia. Mas a agitação começava a crescer e todos pareciam acordar para o que estava acontecendo. Era como se um sentido primitivo de sobrevivência despertasse para um grande risco. Não esperamos por nada e nem pelos outros, só corremos. Chegando na parede oposta, saímos direto pela porta que dava para uma espécie de estacionamento. No fundo havia a noite e o sentimento foi de desconsolo quando percebemos que, no breu noturno daquele pátio mal iluminado, a luz também se fazia presente. Ao longe mas presente. Algumas outras pessoas saíram pela porta e foi possível ver a desorientação nos seus rostos. "Para onde ir, o que fazer?". Eu não sei de onde aquela luz vinha mas realmente havia a impressão lúcida de que haveria uma explosão. Era preciso nos proteger. "Logo agora? Não acredito, precisamos viver. Eu quero que isto dure". Puxei ela de volta pela porta e encontramos um cômodo que parecia mais seguro. Entramos nesta sala completamente vazia. Corri para o canto oposto do cômodo, luzes apagadas, e sentei de costas pra parede puxando ela para junto de mim. Pela porta aberta entrava alguma luz e era possível ver pessoas correndo lá fora. Ela estava sentada de frente pra mim e tinha muito medo. Puxei a sua cabeça para junto da minha e encostamos as testas quase como uma súplica, olhando para baixo e esperando pelo pior. Percebi então que eu vestia um moletom azul com um capuz que prontamente puxei sobre as nossas cabeças como se aquilo fosse nos proteger. Envolvi ela nos meus braços o máximo que pude e esperamos.
A explosão não veio. Estranho. Não devia ter passado nem um minuto quando de repente sabíamos que estávamos fora de perigo. Lá fora as pessoas comentavam, conversavam e ninguém sabia o que havia acontecido. A luz tinha ido embora tão misteriosamente como veio. "O que houve? Vai acontecer novamente?". O tempo passou e ninguém sabia o que fazer. Claro, continuávamos juntos, não queríamos nos separar. Oscilávamos entre os sorrisos nervosos de quem acabara de viver algo inexplicável e os olhares desajeitados dos jovens que sabem que acabaram de conhecer um amor. Mas "amor" era uma palavra completamente inapropriada naquele momento, tanto em contexto como em significado. Não havia palavra para o desejo de viver para sempre nos seus olhos, na sua presença, no toque das suas mãos. Amor era obsoleto. Era preciso ir para algum lugar, talvez a luz tenebrosa voltasse, eu não podia correr o risco de não a ver novamente. Nas cercanias, parecia estar se instalando algum caos. Algumas pessoas correndo, outras dirigindo perigosamente. Eu alugava um pequeno quarto ali próximo, era a opção mais óbvia para nos protegermos já que ela morava longe. Não seria seguro ela se deslocar pra casa. Chegamos no meu lugar. Simples demais mas diante de tudo o que havia acontecido não fazia diferença. De repente entendemos que desde o início de tudo isso era a primeira vez que teríamos tempo de nos olhar, de conversar. O nervosismo era real, era recíproco. E foi ali que acordei.
(Eu me vi em uma das muitas situações que não consegui resolver na minha vida. A cara dela quando percebeu que não ficaríamos juntos, tentando disfarçar a decepção... Os meus olhos procurando um desfecho, a voz sufocada sem conseguir falar... Onde tudo aquilo terminaria? Eu jamais saberei.)
Acordei com uma tristeza imensa, com um sentimento profundo de melancolia. Se terminar esta vida significasse viver para sempre naquele sonho, não me pareceria um desenrolar tão ruim. Talvez eu seja realmente uma pessoa com sérios problemas.
11 de novembro de 2022
Sinto tão profundamente por cada grão de areia escorrido entre os meus dedos que quase não enxergo o brilho das pérolas restantes em minhas mãos.
Vez ou outra, percebo o quanto perdi tentando salvar pequenos fragmentos, coisas que pareciam invencíveis mas que foram desmanchadas pelas ondas sutis e suaves do tempo.
Dói pensar no que passou, nos rochedos e colinas imponentes, nos rios que se entrecruzaram de formas tão inesperadas.
Encontro o afago da liberdade ao saber que tudo corre no mesmo sentido, tudo deságua no mesmo mar.
Me agarro às pérolas, rabisco palavras e me desfaço.
Volto a ser eu mesmo, quem sempre fui, apenas mais um grão.
29 de outubro de 2022
26 de setembro de 2022
Trovões ecoam
e o frio cavalga
uma brisa constante
na chuva tão fria
Presságio, escrito por mim em 2012.
16 de agosto de 2022
9 de abril de 2022
Na medida em que as cores se apagam da minha retina, na medida em que envelheço, me sinto cada vez mais um cadáver adiado. Uma sombra se tornando opaca, uma chama que se distancia do seu ápice rumo às brasas. Os sentimentos já não vêm mais em rompantes através dos textos e a contemplação, outrora fruto de encantamento, hoje é sintoma do cansaço. Sou um homem exausto. Hoje velho, envelhecendo, sou apenas mais um. Me regozijo em obviedades.
11 de março de 2022
2 de fevereiro de 2022
Usemos, irmãos de pensamentos, nossas últimas forças para nos deitar na relva e repousar. É justo que o fim nos encontre em nosso pacífico leito. Depois de tantas dores, cicatrizes, desejos, faltas; Depois de tanta juventude, tamanha sede... nos permitamos ficar pelo caminho, envelhecer. Talvez saiamos desta vida de mãos vazias e, por aceitar, nos perdoemos. Estejamos prontos para decepcionar o espírito jovem que arrastamos até aqui, para enterrar alguns dos nossos sonhos junto ao cadáver gélido do nosso intrépido passado. Em algum momento os nossos pés começaram à doer e não há nada que possamos fazer sobre isto. Vivemos mais do que deveríamos ter vivido, sentimos mais do que deveríamos sentir. Perdemos, no ápice de nossas vidas, o compasso final. O que nos resta é o patético lamento de quem passou do seu tempo. Portanto, irmãos de pensamento, limpemos a casa, lavemos as cortinas e nos aninhemos em nossos afetos. Vamos vestir nossa roupa de domingo e gastar os nossos melhores sorrisos. Não temos muita fé mas amamos e somos amados. Entre alegrias e tristezas, nada me dói mais do que a possibilidade de não termos estado aqui. Regozijemo-nos.
Palavra da perdição,
Amém.
5 de outubro de 2021
O ano é 2021 e eu estou aqui. Decidi republicar os textos, haviam desaparecido porque estavam como rascunho... Não faz diferença, nunca fez. Já se passaram dez anos e de alguma forma eu passei por eles. Tudo deu certo, nada deu certo. Quantas vidas serão necessárias para que eu troque todas as tábuas deste meu Navio de Teseu?
Enquanto procuro a resposta talvez eu volte aqui. Apenas talvez.
23 de junho de 2012
30 de dezembro de 2011
[Fiódor Dostoiévski - Noites Brancas]
24 de novembro de 2011
- Inferno de reveillon - murmurou ciente de que ninguém iria escutar. Talvez o seu gato.
Sentou-se na cama e olhou para os lados. Nem sinal do gato. O apartamento estava escuro. A pouca luz visível penetrava das grandes janelas que ficavam de frente para a rua. Elas estavam todas escancaradas e as cortinas negras balançavam. O vento que entrava, vez ou outra arremessava uma das folhas que repousavam sobre mesa. Desenhos talvez, poemas talvez, pedaços de nada. Elas dançavam graciosamente no ar e projetavam sua sombra como se fossem corvos famintos, depois se ocultavam em algum lugar vazio do seu imenso quarto. O frio era intenso no último dia do ano. Há alguns anos este clima em Goiânia seria impensado. A previsão para hoje era de noite inóspita, com fogos de artifício e uma boa chance de neve. A felicidade alheia pairava no ar e cheirava à champanhe. Ele quase esboçou um sorriso por entre os lábios ao sentir aquilo.
- Champanhe... Uma bebida muito fraca.
22 de novembro de 2011
de vidros embaçados, de frente para o mar
a tarde está triste e o mar furioso
e é naquela janela que eu queria estar
No mesmo lugar há uma casa bem velha
a madeira gritando com o vento a soprar
sem móveis, sem luzes, somente a janela
E é naquela janela que eu queria estar
Ao nascer este erro não houvera escolha
e não tendo escolha fui ser o que era
porém preferia, ao invés deste tolo
eu ser só poeira naquela janela
29 de outubro de 2011
22 de outubro de 2011
Quem é você?
certa coisa estupefata
que, pudera, me arrebata
toda vez que me constrange
Mas não posso abster-me
desta dúvida encrostada
na profunda fenda achada
neste meu pensar falante
Porém, contudo, entretanto
sem prolongar esta espera
a indagação que se empoleira
vou afugentar agora
Faço cercos de fumaça
com semblante assombroso
direi seco e duvidoso
e daqui me vou embora
Pois escute a pergunta
que não espera resposta
Aglutine doce calma
e tome posse do seu tempo
São pendências de outrora
luta clara e fatigante
do senhor de Sancho Pança
com seus moinhos de vento
Perseguindo a navalha
que soletra a verdade
ilusões porém à parte
da carência do 'porquê'
Diga com sinceridade
e certeza provisória:
Qual o intuito destes versos?
E também, quem é você?
17 de outubro de 2011
15 de outubro de 2011
8 de outubro de 2011
24 de setembro de 2011
18 de setembro de 2011
- Fiodór Dostoievski, em Memórias do Subsolo
7 de setembro de 2011
E, meu caro Dean, você estava certo:
em qualquer circunstância,
em qualquer lugar."