8 de maio de 2026

Um Cego

Como um ano passa rápido. Parece que durante este tempo eu nem existi. Mas eu estava aqui, vez ou outra me submetendo às minhas periódicas sessões de auto-flagelamento. Sinceramente, já não sobra quase nada. Eu pensava que tinha um plano para a vida mas a verdade é que eu fui ruim em quase tudo o que importa. Minha vida foi uma soma quase impossível de erros. Eu devia só ter tentado menos. Quando jovem, eu não devia ter fingido que tinha certeza de tudo, na verdade eu estava perdido. Eu devia ter almejado menos, visto menos, sonhado menos... talvez assim também tivesse errado menos. A verdade é que o tempo foi embora e não ficou orgulho de quem eu era. A minha maldição é essa porcaria de relógio sentimental quebrado que me martela até o ponto de eu não aguentar mais. Eu só sigo. Advinha? Novamente, errado.

10 de dezembro de 2024

Tempo

Corre tempo
tempo passou
sempre passa

Correm águas
talvez voltem
tempo não

Passam vidas
ficam saudades
saudades voltam

Passam saudades
ficam sorrisos
também passarão

24 de junho de 2024

Dos Sonhos ou Pesadelos #1

Era uma escola ou talvez algo assim. Ensinavam música ou talvez algo assim. Havia uma janela no andar suspenso onde nos amontoávamos, escorados em uma mesa branca esquecida rente à parede. Estávamos em uma sala pequena, cercada por divisórias frágeis. Era noite e era possível ver o horizonte ao longe, por cima daquela fração da cidade. Víamos árvores e telhados, tudo bem escuro mas distinguível na forma de silhuetas, contrastando com as nuvens iluminadas por uma lua que não enxergávamos. Vestíamos camisetas verdes de um tom vivo, destas como se costuma ver em caixas de supermercado. Não parecíamos ser alunos, talvez fossemos funcionários em um momento de descanso, cerca de oito ou dez pessoas. Eram jovens, na maioria moças, alguns rapazes. Eu próprio era mais jovem do que sou hoje. O sorriso, a conversa, era tudo tão confortável. Mas eu sabia que dentre aqueles rostos havia apenas um sobre o qual a minha atenção orbitava. Mesmo quando eu olhava pra longe naquela janela, era o único rosto que eu via. Sob todos os detalhes dela eu me dobrava, me entregava sem resistir. Ela estava bem próxima, do meu lado esquerdo de onde escorávamos. Na nossa frente o vidro transparente da janela. O sentimento era aconchegante, aquela sensação parecia vir de um lugar já antes visitado. Ao lado dela pairava em mim a certeza de que haveria apenas um caminho dali em diante, de me sentir como a água de um rio que não escolhe pra onde ir. A atração por ela me deixava a sensação de estar voltando pra casa. De alguma forma eu sabia que era recíproco ou que, se ainda não fosse, inevitavelmente viria a ser. Era como se eu tivesse nascido e vivido até aquele momento apenas para estar ali. Eu não sabia o seu nome, eu não sabia nada além do que aquele sentimento materializado no meu corpo recitava no meu ouvido. Apesar de já ter estragado muitas coisas na vida aquilo seria grande demais, belo demais, sincero demais até para eu conseguir destruir. Ao seu lado eu não me sentia capaz de ser nada que não fosse, apenas e sinceramente, eu. Não havia medo, apenas o total e completo pertencimento. Poemas, livros, músicas... tudo seria muito enfadonho. Mesmo em um sonho, ela e eu éramos apenas reais.

De repente, uma luz no horizonte se formando a partir da linha em que os telhados encontravam o céu. Começou a crescer como se algum tipo de gás estivesse sendo assoprado pela terra em direção às nuvens. Brilhava como se fosse uma aurora austral. Cada vez mais e mais, todos perceberam. "O que é aquilo?" era a pergunta inevitável. "O que está acontecendo?". Ao mesmo tempo em que as cores lembravam o brilho que envolve bolhas de sabão, sabíamos que estávamos em perigo. Houve muita agitação. "O que é aquilo?". Avisaram aqueles que estavam em outras salas e logo chegaram na janela. "Parece ser algum gás, vai explodir". Olhei para ela, parecia perdida e assustada, foi a primeira vez que os nossos olhares decididamente se encontraram. Os nossos olhos uns nos outros pareciam um lugar comum, o bosque entre os nossos dois mundos. Eu daria tudo por mais tempo naquele lugar mas estávamos em risco. Busquei a mão dela como quem diz "Vem comigo, vamos sair daqui". Nada precisava ser falado. A coisa que mais me marca e me traz uma profunda tristeza é não continuar sentindo eternamente o toque entre as nossas mãos, tão vívido na lembrança. Dói saber que em algum momento não estará mais aqui. A pequena mão dela estava fria e procurando acolhimento, procurando um rumo. Percebi que, quando eu estendi a mão, a dela já vinha ao meu encontro. Era como se só existisse o caminho que as unia. Marchei em direção às portas e em direção ao lado oposto da construção em que estávamos, nos afastando da janela. Por onde passávamos, algumas pessoas continuavam em seus computadores, trabalhando, desapercebidos de tudo o que acontecia. Mas a agitação começava a crescer e todos pareciam acordar para o que estava acontecendo. Era como se um sentido primitivo de sobrevivência despertasse para um grande risco. Não esperamos por nada e nem pelos outros, só corremos. Chegando na parede oposta, saímos direto pela porta que dava para uma espécie de estacionamento. No fundo havia a noite e o sentimento foi de desconsolo quando percebemos que, no breu noturno daquele pátio mal iluminado, a luz também se fazia presente. Ao longe mas presente. Algumas outras pessoas saíram pela porta e foi possível ver a desorientação nos seus rostos. "Para onde ir, o que fazer?". Eu não sei de onde aquela luz vinha mas realmente havia a impressão lúcida de que haveria uma explosão. Era preciso nos proteger. "Logo agora? Não acredito, precisamos viver. Eu quero que isto dure". Puxei ela de volta pela porta e encontramos um cômodo que parecia mais seguro. Entramos nesta sala completamente vazia. Corri para o canto oposto do cômodo, luzes apagadas, e sentei de costas pra parede puxando ela para junto de mim. Pela porta aberta entrava alguma luz e era possível ver pessoas correndo lá fora. Ela estava sentada de frente pra mim e tinha muito medo. Puxei a sua cabeça para junto da minha e encostamos as testas quase como uma súplica, olhando para baixo e esperando pelo pior. Percebi então que eu vestia um moletom azul com um capuz que prontamente puxei sobre as nossas cabeças como se aquilo fosse nos proteger. Envolvi ela nos meus braços o máximo que pude e esperamos.

A explosão não veio. Estranho. Não devia ter passado nem um minuto quando de repente sabíamos que estávamos fora de perigo. Lá fora as pessoas comentavam, conversavam e ninguém sabia o que havia acontecido. A luz tinha ido embora tão misteriosamente como veio. "O que houve? Vai acontecer novamente?". O tempo passou e ninguém sabia o que fazer. Claro, continuávamos juntos, não queríamos nos separar. Oscilávamos entre os sorrisos nervosos de quem acabara de viver algo inexplicável e os olhares desajeitados dos jovens que sabem que acabaram de conhecer um amor. Mas "amor" era uma palavra completamente inapropriada naquele momento, tanto em contexto como em significado. Não havia palavra para o desejo de viver para sempre nos seus olhos, na sua presença, no toque das suas mãos. Amor era obsoleto. Era preciso ir para algum lugar, talvez a luz tenebrosa voltasse, eu não podia correr o risco de não a ver novamente. Nas cercanias, parecia estar se instalando algum caos. Algumas pessoas correndo, outras dirigindo perigosamente. Eu alugava um pequeno quarto ali próximo, era a opção mais óbvia para nos protegermos já que ela morava longe. Não seria seguro ela se deslocar pra casa. Chegamos no meu lugar. Simples demais mas diante de tudo o que havia acontecido não fazia diferença. De repente entendemos que desde o início de tudo isso era a primeira vez que teríamos tempo de nos olhar, de conversar. O nervosismo era real, era recíproco. E foi ali que acordei.

(Eu me vi em uma das muitas situações que não consegui resolver na minha vida. A cara dela quando percebeu que não ficaríamos juntos, tentando disfarçar a decepção... Os meus olhos procurando um desfecho, a voz sufocada sem conseguir falar... Onde tudo aquilo terminaria? Eu jamais saberei.)

Acordei com uma tristeza imensa, com um sentimento profundo de melancolia. Se terminar esta vida significasse viver para sempre naquele sonho, não me pareceria um desenrolar tão ruim. Talvez eu seja realmente uma pessoa com sérios problemas.

11 de novembro de 2022

Sinto tão profundamente por cada grão de areia escorrido entre os meus dedos que quase não enxergo o brilho das pérolas restantes em minhas mãos.

Vez ou outra, percebo o quanto perdi tentando salvar pequenos fragmentos, coisas que pareciam invencíveis mas que foram desmanchadas pelas ondas sutis e suaves do tempo.

Dói pensar no que passou, nos rochedos e colinas imponentes, nos rios que se entrecruzaram de formas tão inesperadas.

Encontro o afago da liberdade ao saber que tudo corre no mesmo sentido, tudo deságua no mesmo mar.

Me agarro às pérolas, rabisco palavras e me desfaço.

Volto a ser eu mesmo, quem sempre fui, apenas mais um grão.

29 de outubro de 2022

 O amor é sempre o melhor norte.

26 de setembro de 2022

Trovões ecoam
e o frio cavalga
uma brisa constante


Silêncios perguntam
e respostas invadem
meu eu vacilante

A inércia do tempo
afoga o que tenho
de mais bom valor

O céu de poeira
que esconde as estrelas
me induz ao pavor

Raios reluzem
e clareiam as nuvens
que vestem tormento

As sombras que vejo
parecem um demônio
de rosto agourento

Pressinto só dor
mas noto e me perco
na chuva tão fria

Me sinto sozinho
e imploro pra noite:
não me deixe ainda




Presságio, escrito por mim em 2012.
Tenho revisitado os antigos poemas.

16 de agosto de 2022

Sempre que me diminuem, insisto em me acumular. Quando me assopram: espalho, desvaneço, desapareço... então volto, talvez outro, talvez sem fim, talvez por fim. Já fui pedra. Hoje poeira, nunca estive tão perto de mim.

9 de abril de 2022

Na medida em que as cores se apagam da minha retina, na medida em que envelheço, me sinto cada vez mais um cadáver adiado. Uma sombra se tornando opaca, uma chama que se distancia do seu ápice rumo às brasas. Os sentimentos já não vêm mais em rompantes através dos textos e a contemplação, outrora fruto de encantamento, hoje é sintoma do cansaço. Sou um homem exausto. Hoje velho, envelhecendo, sou apenas mais um. Me regozijo em obviedades.

11 de março de 2022

Tenho constatado que, na vida, o sofrimento é invariavelmente mais abundante. A questão que importa é: há um motivo?


De bom préstimo, aceito respostas.

2 de fevereiro de 2022

Usemos, irmãos de pensamentos, nossas últimas forças para nos deitar na relva e repousar. É justo que o fim nos encontre em nosso pacífico leito. Depois de tantas dores, cicatrizes, desejos, faltas; Depois de tanta juventude, tamanha sede... nos permitamos ficar pelo caminho, envelhecer. Talvez saiamos desta vida de mãos vazias e, por aceitar, nos perdoemos. Estejamos prontos para decepcionar o espírito jovem que arrastamos até aqui, para enterrar alguns dos nossos sonhos junto ao cadáver gélido do nosso intrépido passado. Em algum momento os nossos pés começaram à doer e não há nada que possamos fazer sobre isto. Vivemos mais do que deveríamos ter vivido, sentimos mais do que deveríamos sentir. Perdemos, no ápice de nossas vidas, o compasso final. O que nos resta é o patético lamento de quem passou do seu tempo. Portanto, irmãos de pensamento, limpemos a casa, lavemos as cortinas e nos aninhemos em nossos afetos. Vamos vestir nossa roupa de domingo e gastar os nossos melhores sorrisos. Não temos muita fé mas amamos e somos amados. Entre alegrias e tristezas, nada me dói mais do que a possibilidade de não termos estado aqui. Regozijemo-nos. 


Palavra da perdição,

Amém.

5 de outubro de 2021

O ano é 2021 e eu estou aqui. Decidi republicar os textos, haviam desaparecido porque estavam como rascunho... Não faz diferença, nunca fez. Já se passaram dez anos e de alguma forma eu passei por eles. Tudo deu certo, nada deu certo. Quantas vidas serão necessárias para que eu troque todas as tábuas deste meu Navio de Teseu?

Enquanto procuro a resposta talvez eu volte aqui. Apenas talvez.

23 de junho de 2012

Eu sou... Quem eu sou? Quem eu pareço ser? Apenas um sonho? Ou um pesadelo? De quem é este pesadelo? De quem sou? Eu tenho um nome? De quem é meu nome? Quem pensam que sou? Sou de onde? Sou de quando? Pra onde vou? Porque eu vou? Tudo está desmoronando. Não existe nada pior do que estar sobressalente. Pior do que estar, apenas ser.   M        e       l      a      n     c    o   l  i a.

30 de dezembro de 2011

"- (...) Explique-me: por que não havemos todos de ser como irmãos uns para os outros? Por que motivo, quando nos encontramos diante de outra pessoa, mesmo que ela seja a melhor do mundo, havemos sempre de esconder e de calar algo? Por que não havemos nós todos de dizer com absoluta sinceridade aquilo que trazemos no coração, quando sabemos muito bem que as nossas palavras não seriam em vão? Parecemos todos mais frios e taciturnos do que somos na verdade, pode-se dizer que as pessoas têm medo de se comprometer expondo com franqueza os seus sentimentos."

[Fiódor Dostoiévski - Noites Brancas]

24 de novembro de 2011

Naquela noite ele acordou com um desejo muito especial de não ter acordado. Desejava continuar dormindo por mais alguns anos ou até mesmo séculos se fosse necessário. Não era o desânimo que o incomodava mas o completo descontantamento com tudo o que havia acontecido nos últimos seis meses. Esta última semana havia sido particularmente difícil. As festividades de final de ano chegaram em péssima hora. Passara o natal de mal humor, na companhia de alguns amigos, tendo a legítima impressão de não ser o melhor dos convidados. Escondeu uma garrafa de tequila sob o casaco e saiu em silêncio antes da ceia. "Santa ceia", era assim que a chamavam e ele costumava pronunciar este nome com uma boa parcela de sarcasmo. Mas já fazia algum tempo que o sarcasmo não lhe divertia. Preferia caminhar pelas ruas escuras e frias calado pois para ele não havia motivo pra comemorações. E nesta noite em que acordava continuava preferindo a solidão. Por alguns minutos escutou o burburinho das pessoas conversando nas dezenas de apartamentos sobre os quais ele morava. Nos outros prédios ao longo da rua não era diferente. Mais um ano acabava. "Mais um maldito ano", era o seu pensamento.

- Inferno de reveillon - murmurou ciente de que ninguém iria escutar. Talvez o seu gato.

Sentou-se na cama e olhou para os lados. Nem sinal do gato. O apartamento estava escuro. A pouca luz visível penetrava das grandes janelas que ficavam de frente para a rua. Elas estavam todas escancaradas e as cortinas negras balançavam. O vento que entrava, vez ou outra arremessava uma das folhas que repousavam sobre mesa. Desenhos talvez, poemas talvez, pedaços de nada. Elas dançavam graciosamente no ar e projetavam sua sombra como se fossem corvos famintos, depois se ocultavam em algum lugar vazio do seu imenso quarto. O frio era intenso no último dia do ano. Há alguns anos este clima em Goiânia seria impensado. A previsão para hoje era de noite inóspita, com fogos de artifício e uma boa chance de neve. A felicidade alheia pairava no ar e cheirava à champanhe. Ele quase esboçou um sorriso por entre os lábios ao sentir aquilo.

- Champanhe... Uma bebida muito fraca.

22 de novembro de 2011

Em algum lugar existe uma janela
de vidros embaçados, de frente para o mar
a tarde está triste e o mar furioso
e é naquela janela que eu queria estar

No mesmo lugar há uma casa bem velha
a madeira gritando com o vento a soprar
sem móveis, sem luzes, somente a janela
E é naquela janela que eu queria estar

Ao nascer este erro não houvera escolha
e não tendo escolha fui ser o que era
porém preferia, ao invés deste tolo
eu ser só poeira naquela janela

29 de outubro de 2011

"Talvez tivesse havido tragédia na situação, mas o pistoleiro não via isso; via apenas a predestinação de sempre. E por fim, a natureza mais realista de seu temperamento voltou a se afirmar, e ele dormiu profundamente, sem sonhos."

[Stephen King - A Torre Negra]

22 de outubro de 2011

Quem é você?

Eu queria dizer sucinto
certa coisa estupefata
que, pudera, me arrebata
toda vez que me constrange

Mas não posso abster-me
desta dúvida encrostada
na profunda fenda achada
neste meu pensar falante

Porém, contudo, entretanto
sem prolongar esta espera
a indagação que se empoleira
vou afugentar agora

Faço cercos de fumaça
com semblante assombroso
direi seco e duvidoso
e daqui me vou embora

Pois escute a pergunta
que não espera resposta
Aglutine doce calma
e tome posse do seu tempo

São pendências de outrora
luta clara e fatigante
do senhor de Sancho Pança
com seus moinhos de vento

Perseguindo a navalha
que soletra a verdade
ilusões porém à parte
da carência do 'porquê'

Diga com sinceridade
e certeza provisória:
Qual o intuito destes versos?
E também, quem é você?

17 de outubro de 2011

Assim eu acordo. Sete horas da manhã e nenhum motivo para acordar. Meus olhos vermelhos, minha pele suada. Talvez tenha sido por conta de algum pesadelo destes que eu nem me lembro. Já faz tempo que eles começaram a se repetir e eu parei de me importar. Assim eu acordo, com os meus olhos ardendo. Fossem outros tempos eu continuaria deitado mas agora eu não consigo, agora eu não posso. Assim que acordo eu me levanto e troco alguns passos desajeitados até o banheiro. Um banho rápido na água fervente que custa sair do chuveiro, escovo os dentes, olho pra mim mesmo: "Que figura deprimente". Assim eu acordo às sete horas de uma segunda feira. "Hora do colírio". Dois deles, um de frasco azul e outro de frasco branco, cinco minutos de diferença entre um e o outro. Eu sempre me perco nos minutos, sempre. Caminho pesarosamente até a cozinha, estou sem fome, tomo apenas leite. O gosto está estranho mas mesmo assim eu o bebo, sem pressa, sem pressa... "Tomara que eu nunca termine este copo". Pela janela, dou uma olhada rápida no dia nublado lá fora: "Muito cedo, são sete horas". E assim eu acordo. Volto para o meu quarto, sento-me por algum tempo e olho à esmo para os móveis, os livros na prateleira. Ligo o velho notebook surrado que demora uma eternidade para iniciar. "Ele sempre foi assim, sempre". São sete horas e a internet está tão vazia agora. Tão vazia quanto ontem e antes, antes... e até antes mesmo. Olho pro relógio, sete horas. São sete horas desde que eu acordei, e assim eu acordo. Ligo o estéreo quebrado que só reproduz som em uma de suas duas caixas antigas e desligo a luz para tomar a minha dose diária de Pink Floyd:  "Wish You Were Here... O melhor álbum de todos os tempos, o melhor mesmo". Acabei de acordar mas estou curiosamente cansado, deito-me. A luz opaca do velho note me permite ver algumas silhuetas na penumbra do meu quarto. Me descubro olhando para o teto acima da minha cabeça, para um forro de madeira envernizada: "Verniz escuro, marcas na madeira, marcas...". Não sinto fome, não sinto sono,  não sinto nada. "How i wish, how i wish you were here...". Hoje eu não trabalho, amanhã eu não trabalho. Não sei se quero mais trabalhar. "We are just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year...". O que eu faço agora? Vontade estranha de ficar aqui parado. Vontade estranha de sair correndo, de fazer algo, de não existir. Não preciso olhar para o relógio, eu sei que continuam sendo sete horas pois assim o é desde que eu acordei, e assim eu acordo. "Running over the same old ground, what have we found?...". O que eu vou fazer? Vou ficar aqui deitado e terminar minha dose diária. Não importa quanto tempo eu demore, não tem nada me esperando lá fora. Pensando bem, talvez até o mundo acabe em alguns instantes. "The same old fears...". Eu queria ter dormido mais esta noite, eu queria não ter acordado, eu queria ter continuado naquele pesadelo mas, como sempre, pouco importam minhas vontades. Sete horas, segunda feira e eu acordo exatamente igual a todos os dias, nublado como uma tarde de novembro. "Wish you were here, wish you were here...". E agora? "Agora meu amigo você acorda, e começa tudo novamente".

15 de outubro de 2011

Meus olhos ardem como brasa
e nem é isso que incomoda

Um quarto escuro me enjaula
e nem é isso que incomoda

Cada luz é uma adaga
o silêncio me tortura

Mas com exceção d'ausência sua
nada disso incomoda

8 de outubro de 2011

Tempos difíceis
Páginas cheias
de solidão

Chove lá fora
se alaga aqui dentro
o meu coração

Escuto calado
o grito distante
do vento

As horas não passam
relâmpagos pararam
o tempo

Sofro em três linhas

24 de setembro de 2011

Ele andava sempre, por vários lugares, por muitas estradas. Conheceu todo o tipo de coisa, escutou quase tudo anotando toda e qualquer palavra. Eram desertos, eram florestas, era por sobre a água e debaixo dela também. Molhou-se na chuva, queimou-se no sol, banhou-se de lua. Acompanhou a sombra das nuvens de maneira despreocupada. Sorriu de alegria quando viu o céu nublado, chorou de tristeza ao nascer do dia. Acendeu fogueiras, construiu tochas e casas na árvore, participou de diversas batalhas. Domou fabulosos cavalos negros. Foram lobos e águias os seus amigos mais próximos. Quando partia era saudade, quando voltava era alegria, quando caminhava era de tudo um pouco. Avançava pelas paisagens bucólicas. Era um nada tão cheio de vida que parecia até ser algo. Nem humano, nem mineral, apenas algo. Se misturava com a terra úmida e com as pedras molhadas de um jeito inseparável e sempre que se lavava nas cachoeiras um pouco de si ia embora, rumo ao mar ou sabe-se lá pra onde. Mas ele não se importava. "Se 'também é ser deixar de ser assim' então não carece se importar". Na verdade, raramente se importava com algo que não fosse sua fome, seu sono e a estrada. Ah, a estrada lhe importava muito. Mas sempre haveria alguma em algum lugar. Quando parava ou dormia, tinha a impressão de que o mundo continuava a sua caminhada, girando por debaixo dele, e nestes momentos ele parecia regredir. Mas chegara à conclusão de que, para frente ou para trás, não importava a direção pois não queria chegar a lugar nenhum. Ele queria mesmo era apenas andar por aí e ver as coisas como elas são. E o que dizer sobre seus olhos castanhos e sua pele queimada? Nada disso acrescentaria mais ao que já foi dito sobre aquele garoto metade homem, metade menino. Porém, convém saber uma história que ele me contou em um destes sonhos nos quais tem me visitado. Certa manhã chegou a um descampado no meio do nada. Deparou-se com uma linha em sua frente. Ela se perdia de vista de ambos os lados. Do lado da linha em que se encontrava, ele podia ver tudo aquilo que lhe era tocável, tudo o que, concreto ou abstrato, estava ao seu alcance. Eram coisas incríveis e possíveis de serem aproveitadas e vividas sempre. Podia brincar com elas como se fossem um quebra-cabeça ou empilhá-las em um castelo de cartas ou de areia. Podia desfazer tudo e começar tudo novamente de outra maneira. Podia fazer as coisas como quisesse e observar o que aquilo desencadearia, se balançando nas ondas agitadas pelas geleiras que se derreteriam e despencariam despropositadamente. Eram os cavalos selvagens, os lobos, as águias, as nuvens, os desertos e florestas. Eram campos de flores e enxames de abelha. Era a chuva mansa num final de tarde. Podia ver ali todas as possibilidades. Eram todas as coisas em que ele havia esbarrado ao longo da estrada. "E do outro lado da linha?" - perguntei curioso ao homem no espelho. "Do outro lado? Eu não sei." - me disse ele, pensativo - "Imagino que aquela fosse a linha das escolhas e das possibilidades. Do outro lado deve estar tudo aquilo que havia escolhido ou precisado estar lá naquele momento. As escolhas e as linhas mudam frequentemente. Só uma coisa não muda: eu sempre estarei do meu lado e sempre haverá uma linha me separando de algo,  inevitavelmente".

18 de setembro de 2011

"A vida é em vão". Foi isso que eu disse com uma naturalidade que me deixou espantado. Não que tenha sido a primeira vez que o digo, é claro. É que no final das palavras, eu percebi que elas tinham saído do fundo do coração. E foi assim que eu resumi a banalidade dos conflitos conosco e com as nossas escolhas: "A vida, minha cara, ela é em vão". Palavras assim machucam a alma, não é verdade? Não é coisa que devemos sair falando para os outros ou para nós mesmos. Mas o que fazer quando alguém lhe diz que talvez seja em vão tudo o que tem feito? Sim, talvez, muito provavelmente, seja tudo em vão. Porém, é preciso dizer que eu nem sei se acredito em mim mesmo. Contudo, é preciso ponderar algo. Não costumamos pensar na falta de préstimos da vida quando estamos felizes ou apaixonados. Não costumamos investigar a banalidade das coisas quando estamos amando. Talvez, um motivo para tudo seja apenas nos afastarmos destes pensamentos enlameados. Seja não pensar no propósito de nada. Esboçar um sorriso quando nos vier à mente a banalidade da vida. Abraçar a futilidade das escolhas. Ser apenas este misto entre tristeza e felicidade. Mas quem quer acreditar nisto é o meu eu poético. O mesmo que ficou espantado quando o meu eu concreto lhe disse aquelas palavras. E, na minha cabeça, eles passam horas argumentando, tentando convencer um ao outro de que suas conclusões são as corretas. Este é um de meus vários conflitos, uma das várias batalhas que eu travo. Por assim dizer, minha cara, quando eu lhe disse aquilo, era reflexo de uma guerra entre o que eu vejo com os olhos e o que eu sinto com a alma. "A vida é em vão". Será mesmo? Esta pode ter sido a minha mentira mais sincera ou a minha verdade mais falsa. E como vou saber? Espero que você descubra e me conte. E quando me contar eu vou acreditar nas suas palavras. Vou acreditar com uma razão e lucidez que eu não tenho creditado nem a mim mesmo. Mas não demore. A vida pode até ser em vão, mas a verdade é que ela passa.
"Todo homem tem algumas lembranças que ele não conta a todo mundo, mas apenas a seus amigos. Ele tem outras lembranças que ele não revelaria nem mesmo para seus amigos, mas apenas para ele mesmo, e faz isso em segredo. Mas ainda há outras lembranças que o homem tem medo de contar até a ele mesmo, e todo homem decente tem um considerável número dessas coisas guardadas bem no fundo. Alguém até poderia dizer que, quanto mais decente é o homem, maior o número dessas coisas em sua mente."

- Fiodór Dostoievski, em Memórias do Subsolo

7 de setembro de 2011

E agora, o que preenche este vazio depois do início dos meus versos?
E agora, que na ausência do dizer, eu não preciso de palavras?
E agora, que a tristeza na minh'alma já nem mesmo incomoda?
E agora, que ao final de tudo isto, na verdade, nada acaba?
E agora, que agosto foi embora e o ano continua?
E agora, que pensando em você o relógio já não para?
E agora, que o amor se acabou e satisfez o meu desejo?
E agora, que a sede não persiste e a febre não me ataca?
E agora, que o lápis não escreve e poesia não é tudo?
E agora, que não tem mais dor alguma e nem motivo pra chorar?
E agora, que ficou este vazio tão imenso quanto o mundo?
E agora, que a noite sem a lua me convida pra sonhar?
E agora, o que virá daqui pra frente? Como hei-de saber o que virá?
Eu vejo no horizonte o caminho duvidoso que se estende até o futuro
E, meu caro Dean, você estava certo:

"Há sempre uma estrada,
em qualquer circunstância,
em qualquer lugar."

27 de agosto de 2011

Parece estar quente lá fora. Daqui eu apenas sinto o frio das grades e o sussurrar das vozes enjauladas. Ouço o som de dedos digitando palavras, construindo paredes. Além do concreto eu imagino as paisagens bucólicas, as estradas desertas e acima do teto eu imagino o entardecer calmo do dia. Observo as cadeiras, os computadores, as mesas, as pessoas de plástico e suas cabeças vazias. E cá estamos, enfileirados: vidas de areia, dias ensolarados, pensamentos distantes e os meus dedos gelados, construindo sem pressa um castelo de letras.

11 de agosto de 2011

[...Fim / Mentira / Covardia / Entrega] Eu já vinha desenvolvendo algumas idéias. Sem muitas delongas, eu era um sujeito que pensava e pensava muito. Parecia um para-raio que atrai e potencializa tudo aquilo que o cerca. Demasiadamente sentimental e introspectivo, muitos diriam. Talvez sim. Digo isto porque é preciso esclarecer: apesar de admirar a normalidade, eu nunca fui e nem serei atraído por ela. Um sujeito normal provavelmente nunca chegaria ao buraco que eu cheguei. Nunca teria visitado todos aqueles lugares horríveis dentro dos outros e de si mesmo. Porém, é certo dizer que, uma vez lá, o sujeito normal nunca sairia e viveria para sempre aprisionado. Assim os deixo sob aviso. Haviam se passado sete dias depois do início. Naquela noite eu estava sentado em meu quarto, trancado sozinho, remoendo tudo dentro de mim. Lembre-se de que eu havia visto a face de todo o mal e vivido dois longos séculos preso, por ele sendo torturado. Reclinei-me na cadeira, apoiei os pés sobre cama e olhei para o teto. Era pra um forro de madeira envernizado que eu olhava. Eu estava sem camisa. A janela semi-aberta projetava um ar frio que contrastava com o calor da noite enluarada. Fechei os olhos e respirei profundamente. Pensei em tudo, tudo mesmo. Tive por um breve momento uma visão ampla daquilo que me cercava, do que havia acontecido, de tudo o que eu passara naquele parque e até mesmo antes, quando perdi a minha alma. De repente, o inesperado. Senti meu interior se transformar em um mar azul e límpido que se acalma. Senti uma brisa e um arrepio. Abri os olhos. Aquele havia sido o segundo gatilho e eu olhava novamente para a vida. Eu tinha sido completamente destruído e agora começava a me reconstruir. O instante que se seguiu foi incrível. Primeiro eu compreendi e aceitei tudo, até mesmo o que não concordava. Inexplicavelmente eu passei a gostar das pessoas do jeito que elas são e com as escolhas que fazem. Não sei porque, eu simplesmente as amava. Eu sabia que meu amor não era correspondido e que a incontestável natureza humana continuava a mesma, mas eu não me importava. Eu sabia quem eram os outros mas sobretudo eu sabia quem era eu mesmo. Não se confundam com os fatos. Não entrei novamente em estado de auto-hipnose, tentando escapar do inevitável. O que eu vivi não tem volta e está gravado profundamente. Jamais esquecerei aqueles séculos pois eles me fortaleceram e ensinaram. Ainda vivo e revivo momentos tristes com frequência, acontece que agora eu choro. O que eu quero dizer é que ali, sentado no meu quarto, no sétimo dia, eu fiz as pazes com Deus e com o Diabo. Não sei explicar direito, mas naquela noite eu transcendi algo. Deixei sair pra fora tudo o que eu havia aprisionado entre sorrisos e lágrimas. E foi por isto eu escrevi estes textos: pra me libertar e pra libertar estas palavras. Talvez finalmente eu tenha compreendido Nietzsche quando ele disse que "é preciso ser superior à humanidade pela força, pela grandeza de alma". Sim Nietzsche, eu te compreendo. É preciso ser superior pela grandeza de alma. E a vida continua.
[Continuação...] Da forma intensa como se sucederam, as reações diretas de tudo aquilo duraram sete dias. Foram dias terríveis. É difícil descrever a maneira como eles se passaram. Pode-se dizer que na maior parte do tempo eu estava tentando compreender aquilo que havia sentido. Parece ser bem simples: uma garota, uma decepção e ponto final. Mas diante de tanto sofrimento eu precisava ir mais fundo, não bastava ser razoável. Decepções parecidas sempre existiram mas esta última reação foi dolorosamente surreal e inesperada. Desenterrei então, do fundo obscuro da minha memória, algumas lembranças que eu mesmo havia escondido. Primeiro uma criança, tentando compreender toda a miséria e tristeza que as pessoas atribuíam a si mesmas ao praticarem o egoísmo, a indiferença e todo o mal. De maneira confusa, ela chegara à conclusão de que não existia esperança para este mundo, e passara a ter total descrença em tudo aquilo que fosse oriundo do ser humano. Não valia a pena acreditar na humanidade. Depois, envolto por névoa, um jovem e uma experiência: dar uma chance a tudo o que desacreditava. Fechou os olhos e hipnotizou a si mesmo, interiorizou suas novas crenças e vontades e nasceu novamente. Abriu os olhos e viu pela primeira vez o seu novo mundo, o mundo das possibilidades. Passou a procurar pelos quatro cantos alguma evidência que confirmasse sua teoria. Passou experimentar as pessoas e os relacionamentos e, sobretudo, a observar atentamente cada simples e pequeno detalhe, cada palavra, cada piscar, cada movimento. A sociedade era um grande laboratório. Mas, cego pela sua vontade, ele queria tanto acreditar em sua tese que adulterava cada um dos resultados. As evidências eram claríssimas mas ele não as enxergava porque elas o contrariavam. Só via as possibilidades, porque estava vivendo no mundo das possibilidades onde tudo o que é bom também é possível. Ele estava fadado a morrer auto-hipnotizado, fatalmente acreditando em ilusões até o fim dos seus dias, vítima de si mesmo. Porém, ao longo da linha confusa do tempo, encontrou um gatilho. Um amor imenso. Uma rejeição. Uma afirmação do que já sabia. Um tiro certeiro no peito e o fim do sono induzido. Foi impossível negar tudo aquilo. Caiu o seu mundo imaginário. Isto abriu a sua própria Caixa de Pandora, libertando assim os seus demônios aprisionados. Ao revelar tudo isto há muito escondido, aqueles dias negros se tornaram um pouco mais claros. Não tratava-se apenas de uma garota, tratava-se de tudo. Durante muito tempo eu havia insistido em compreender as pessoas, suas motivações, seus anseios, seus medos e tudo mais o que as envolve. Eu nunca havia ponderado o perigo implícito. Eu não imaginava que o outro é um espelho. Eu vos digo o que tenho hoje como uma profunda verdade: a natureza humana é uma caixa preta que não deve ser aberta nunca, jamais. Uma vez que tenhamos visto o conteúdo escuro dela, estaremos condenados a não acreditar em mais nada. Não há volta para o que eu vi, eu sei. O mundo real também é o mundo das consequências. Eu pensei que nunca mais amaria como amigo, como amante, como nada. Pensei que a vontade de conviver havia pra sempre me abandonado. Mas então veio o sétimo dia.

10 de agosto de 2011

[Continuação...] Peguei minhas coisas e saí. Deixei um recado avisando que eu não estava me sentindo bem. Eu realmente não estava. Não esperei o elevador e desci logo as escadas. Eu não sabia se corria ou se caminhava. Eu não sabia nada, nem pra onde iria. Estava completamente pálido. Quando deixei aquele prédio, esfreguei os olhos. Se era um pesadelo eu não havia acordado. Coloquei uns óculos escuros e dirigi perigosamente por algum tempo. Acelerava forte e deslocava rápido, muito rápido. Bastava diminuir o ritmo pra algo estranho voltar a crescer no meu peito. E então eu acelerava o quanto podia. Eu não queria ver ninguém, mas havia gente por todo lado e eu as odiava. Parei em um parque. O sol estava realmente quente, como ele normalmente fica durante as tardes de agosto. Caminhei até a beira do lago, me sentei bem perto dele e escorei-me em uma árvore. Um pouco ao longe crianças corriam, pessoas caminhavam de mãos dadas ou conversavam. Eu apenas ficava ali sentado. Calça jeans, camiseta escura, óculos escuros, um olhar perdido em algum lugar do outro lado daquele lago em meio às árvores. Pensei comigo que era a hora de digerir os fatos. Foi então que começou. Senti as coisas mais estranhas. Coisas que eu nunca havia sentido. Nunca antes eu tinha experimentado tristeza tamanha. Às vezes parecia que eu ia desmaiar. Algo ia crescendo dentro de mim e me devorando lentamente. Começava no meu estômago e ia se espalhando por todo o corpo, passava pelo meu pescoço subindo pela garganta, me adormecia os lábios e quando chegava nos meus olhos eles ficavam marejados de lágrimas. Mas eu não chorava, eu não queria deixar aquela tristeza escapar. Eu queria sentir cada pedacinho dela e registrar na minha memória para todo o sempre. Eu queria aprender. Mas ali naquele momento era apenas um corte, profundo e certeiro, sem esperança de ser cicatrizado. O sol literalmente me queimava. Eu achei que ele também poderia queimar aquilo que estava dentro de mim mas ele só trazia mais e mais sentimentos à tona. Aquela mistura entre calor e ressentimentos era extremamente afiada. Passaram-se duas horas e foram as piores duas horas da minha vida. Durante este tempo eu fui ao inferno e voltei várias vezes. Briguei com demônios, praguejando-os como um louco. Indaguei falsos anjos mas eles não respondiam. Briguei com Deus e o desafiei a acabar comigo ali mesmo naquele momento. Deus também havia me abandonado. Por duas horas eu era a personificação do que há de mais sombrio neste mundo. Eu era uma espécie de cordeiro sendo sacrificado. Era o meu sangue que purificava tudo e possibilitava toda e qualquer felicidade. Cronologicamente foram duas horas mas relativamente eu vivi dois longos séculos ali sentado, escorado naquela árvore, sob aquele sol escaldante. A cada minuto uma adaga era cravada em meu peito, direto no coração, e eu gritava. Nada mais importava, porque doía muito. Foram dois longos séculos e era exatamente assim que eu me sentia: dilacerado. Ao final destas horas eu me perguntei o porque daquilo tudo. "Por que?". Eu nunca saberei explicar. A minha batalha residia no mundo dos sentimentos e não das palavras. É mais ou menos isto que você sente quando o seu universo, construído ao longo de uma vida, simplesmente vem abaixo. E, finalmente, você não tem mais nada. Absolutamente nada. Então eu me levantei e dirigi pra casa.

5 de agosto de 2011

[Início...] Eu nem sabia que dor assim poderia existir. Em um instante eu estava pasmo, olhando fixamente para o que agora eu parecia ver. Senti minha respiração parar. Fiquei completamente pálido e meus lábios adormeceram. Em toda a minha face, uma leve sensação de formigamento. A falta de ar começou a me sufocar, me esforcei para mecanizar uma respiração profunda e pesada. Não foi o suficiente para afagar meus pulmões. Era o meu coração que estava inchado, preenchendo quase todo o peito. "Assim deve ser a morte". Não acreditei. Olhei novamente e encontrei as mesmas palavras. Li novamente e encontrei o mesmo significado. Durante uma pequena fração de tempo eu revivi inúmeros dias. Vi hasteado em minha frente tudo o que eu sempre havia ignorado. Revivi de olhos abertos todos aqueles momentos e ao final encontrei a incontestável natureza humana, nua e escancarada em cada ato. Devo então ter pronunciado algo sem sentido, movido pela torrente de pensamentos. Mais uma respiração abafada. Meu olhar fixo, tentando enxergar. Uma neblina densa havia tomado conta de toda a sala. Tentei disfarçar dizendo algo, mas perdi a voz. De repente percebi que não escutava mais nada. Pensei que devia chorar, mas eu não tinha lágrimas. Este tipo específico delas, Deus não havia inventado. Em algum momento da criação ele deve tê-las julgado horríveis e desnecessárias, mas eu precisava. Levantei-me e saí dali rápido, cambaleando até o banheiro. Eu estava no décimo andar. Grandes janelas abertas me convidavam. Caminhei até uma delas. Apoiei as duas mãos na borda, que não era alta. Debrucei-me levemente e olhei pra baixo. "Dez andares". Senti náuseas. Dei um passo para trás. Foi então, neste exato momento, que a minha alma se jogou daquela janela, sem ao menos hesitar. Eu estava morrendo e não tinha lágrimas e tudo aquilo que eu estava sentindo ela não podia aguentar. Ficou frio quando deixou o meu corpo e se projetou em um átimo. Braços à frente, um salto certeiro e lá se foi. Fiquei boquiaberto, embasbacado. Quando se distanciou daquele prédio em linha reta, um ou dois metros à frente, a escutei dizer: "É o fim ali embaixo, é o fim ali embaixo". Pude sentir o quanto ela desejava aquele pedaço gelado de concreto. Depois disto foi um momento interminável, o início do declínio, da queda tão esperada. Mas não houve queda. O ar não era suficientemente denso e ela começou a flutuar. Sem entender, balançou-se pra todo lado. Não adiantava, não caía, apenas subia em uma parábola. Subia e subia, rumo ao espaço. Agucei os olhos para vê-la desaparecer, e mais nada. Segurei forte a borda da janela, num sobressalto. Ela havia se enganado porque ficou muito leve sem toda a minha mágoa. Eu a vi ir embora como quando se liberta um pássaro, e ela se foi livre, por este mundo afora. Senti o meu coração pesado. E quem disse que um homem não pode viver desalmado? Eu vivo, pois foi desta maneira que eu perdi a minha alma. Hoje, talvez ela vague em algum lugar. Ou, pensando bem, não sei qual de nós dois vaga. O fato é que estamos melhor depois de separados. Eu sou um homem menos triste sem uma alma aprisionada. Ela finalmente é feliz, sem um coração despedaçado.

30 de julho de 2011

Vejo uma folha descer o rio, ela vem e vai e passa. Vejo a espuma num rodopio e ela também vem e passa. Parece que só eu fico. Vejo tudo sumir ao longe, na curva distante abaixo do rio. Algo espreita do outro lado. As árvores assistem. O vento se cala. Um breve sorriso. É hora de me jogar das pedras, hora de acompanhar as águas.

29 de julho de 2011