24 de setembro de 2011
Ele andava sempre, por vários lugares, por muitas estradas. Conheceu todo o tipo de coisa, escutou quase tudo anotando toda e qualquer palavra. Eram desertos, eram florestas, era por sobre a água e debaixo dela também. Molhou-se na chuva, queimou-se no sol, banhou-se de lua. Acompanhou a sombra das nuvens de maneira despreocupada. Sorriu de alegria quando viu o céu nublado, chorou de tristeza ao nascer do dia. Acendeu fogueiras, construiu tochas e casas na árvore, participou de diversas batalhas. Domou fabulosos cavalos negros. Foram lobos e águias os seus amigos mais próximos. Quando partia era saudade, quando voltava era alegria, quando caminhava era de tudo um pouco. Avançava pelas paisagens bucólicas. Era um nada tão cheio de vida que parecia até ser algo. Nem humano, nem mineral, apenas algo. Se misturava com a terra úmida e com as pedras molhadas de um jeito inseparável e sempre que se lavava nas cachoeiras um pouco de si ia embora, rumo ao mar ou sabe-se lá pra onde. Mas ele não se importava. "Se 'também é ser deixar de ser assim' então não carece se importar". Na verdade, raramente se importava com algo que não fosse sua fome, seu sono e a estrada. Ah, a estrada lhe importava muito. Mas sempre haveria alguma em algum lugar. Quando parava ou dormia, tinha a impressão de que o mundo continuava a sua caminhada, girando por debaixo dele, e nestes momentos ele parecia regredir. Mas chegara à conclusão de que, para frente ou para trás, não importava a direção pois não queria chegar a lugar nenhum. Ele queria mesmo era apenas andar por aí e ver as coisas como elas são. E o que dizer sobre seus olhos castanhos e sua pele queimada? Nada disso acrescentaria mais ao que já foi dito sobre aquele garoto metade homem, metade menino. Porém, convém saber uma história que ele me contou em um destes sonhos nos quais tem me visitado. Certa manhã chegou a um descampado no meio do nada. Deparou-se com uma linha em sua frente. Ela se perdia de vista de ambos os lados. Do lado da linha em que se encontrava, ele podia ver tudo aquilo que lhe era tocável, tudo o que, concreto ou abstrato, estava ao seu alcance. Eram coisas incríveis e possíveis de serem aproveitadas e vividas sempre. Podia brincar com elas como se fossem um quebra-cabeça ou empilhá-las em um castelo de cartas ou de areia. Podia desfazer tudo e começar tudo novamente de outra maneira. Podia fazer as coisas como quisesse e observar o que aquilo desencadearia, se balançando nas ondas agitadas pelas geleiras que se derreteriam e despencariam despropositadamente. Eram os cavalos selvagens, os lobos, as águias, as nuvens, os desertos e florestas. Eram campos de flores e enxames de abelha. Era a chuva mansa num final de tarde. Podia ver ali todas as possibilidades. Eram todas as coisas em que ele havia esbarrado ao longo da estrada. "E do outro lado da linha?" - perguntei curioso ao homem no espelho. "Do outro lado? Eu não sei." - me disse ele, pensativo - "Imagino que aquela fosse a linha das escolhas e das possibilidades. Do outro lado deve estar tudo aquilo que havia escolhido ou precisado estar lá naquele momento. As escolhas e as linhas mudam frequentemente. Só uma coisa não muda: eu sempre estarei do meu lado e sempre haverá uma linha me separando de algo, inevitavelmente".
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário