10 de agosto de 2011

[Continuação...] Peguei minhas coisas e saí. Deixei um recado avisando que eu não estava me sentindo bem. Eu realmente não estava. Não esperei o elevador e desci logo as escadas. Eu não sabia se corria ou se caminhava. Eu não sabia nada, nem pra onde iria. Estava completamente pálido. Quando deixei aquele prédio, esfreguei os olhos. Se era um pesadelo eu não havia acordado. Coloquei uns óculos escuros e dirigi perigosamente por algum tempo. Acelerava forte e deslocava rápido, muito rápido. Bastava diminuir o ritmo pra algo estranho voltar a crescer no meu peito. E então eu acelerava o quanto podia. Eu não queria ver ninguém, mas havia gente por todo lado e eu as odiava. Parei em um parque. O sol estava realmente quente, como ele normalmente fica durante as tardes de agosto. Caminhei até a beira do lago, me sentei bem perto dele e escorei-me em uma árvore. Um pouco ao longe crianças corriam, pessoas caminhavam de mãos dadas ou conversavam. Eu apenas ficava ali sentado. Calça jeans, camiseta escura, óculos escuros, um olhar perdido em algum lugar do outro lado daquele lago em meio às árvores. Pensei comigo que era a hora de digerir os fatos. Foi então que começou. Senti as coisas mais estranhas. Coisas que eu nunca havia sentido. Nunca antes eu tinha experimentado tristeza tamanha. Às vezes parecia que eu ia desmaiar. Algo ia crescendo dentro de mim e me devorando lentamente. Começava no meu estômago e ia se espalhando por todo o corpo, passava pelo meu pescoço subindo pela garganta, me adormecia os lábios e quando chegava nos meus olhos eles ficavam marejados de lágrimas. Mas eu não chorava, eu não queria deixar aquela tristeza escapar. Eu queria sentir cada pedacinho dela e registrar na minha memória para todo o sempre. Eu queria aprender. Mas ali naquele momento era apenas um corte, profundo e certeiro, sem esperança de ser cicatrizado. O sol literalmente me queimava. Eu achei que ele também poderia queimar aquilo que estava dentro de mim mas ele só trazia mais e mais sentimentos à tona. Aquela mistura entre calor e ressentimentos era extremamente afiada. Passaram-se duas horas e foram as piores duas horas da minha vida. Durante este tempo eu fui ao inferno e voltei várias vezes. Briguei com demônios, praguejando-os como um louco. Indaguei falsos anjos mas eles não respondiam. Briguei com Deus e o desafiei a acabar comigo ali mesmo naquele momento. Deus também havia me abandonado. Por duas horas eu era a personificação do que há de mais sombrio neste mundo. Eu era uma espécie de cordeiro sendo sacrificado. Era o meu sangue que purificava tudo e possibilitava toda e qualquer felicidade. Cronologicamente foram duas horas mas relativamente eu vivi dois longos séculos ali sentado, escorado naquela árvore, sob aquele sol escaldante. A cada minuto uma adaga era cravada em meu peito, direto no coração, e eu gritava. Nada mais importava, porque doía muito. Foram dois longos séculos e era exatamente assim que eu me sentia: dilacerado. Ao final destas horas eu me perguntei o porque daquilo tudo. "Por que?". Eu nunca saberei explicar. A minha batalha residia no mundo dos sentimentos e não das palavras. É mais ou menos isto que você sente quando o seu universo, construído ao longo de uma vida, simplesmente vem abaixo. E, finalmente, você não tem mais nada. Absolutamente nada. Então eu me levantei e dirigi pra casa.

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