11 de agosto de 2011
[Continuação...] Da forma intensa como se sucederam, as reações diretas de tudo aquilo duraram sete dias. Foram dias terríveis. É difícil descrever a maneira como eles se passaram. Pode-se dizer que na maior parte do tempo eu estava tentando compreender aquilo que havia sentido. Parece ser bem simples: uma garota, uma decepção e ponto final. Mas diante de tanto sofrimento eu precisava ir mais fundo, não bastava ser razoável. Decepções parecidas sempre existiram mas esta última reação foi dolorosamente surreal e inesperada. Desenterrei então, do fundo obscuro da minha memória, algumas lembranças que eu mesmo havia escondido. Primeiro uma criança, tentando compreender toda a miséria e tristeza que as pessoas atribuíam a si mesmas ao praticarem o egoísmo, a indiferença e todo o mal. De maneira confusa, ela chegara à conclusão de que não existia esperança para este mundo, e passara a ter total descrença em tudo aquilo que fosse oriundo do ser humano. Não valia a pena acreditar na humanidade. Depois, envolto por névoa, um jovem e uma experiência: dar uma chance a tudo o que desacreditava. Fechou os olhos e hipnotizou a si mesmo, interiorizou suas novas crenças e vontades e nasceu novamente. Abriu os olhos e viu pela primeira vez o seu novo mundo, o mundo das possibilidades. Passou a procurar pelos quatro cantos alguma evidência que confirmasse sua teoria. Passou experimentar as pessoas e os relacionamentos e, sobretudo, a observar atentamente cada simples e pequeno detalhe, cada palavra, cada piscar, cada movimento. A sociedade era um grande laboratório. Mas, cego pela sua vontade, ele queria tanto acreditar em sua tese que adulterava cada um dos resultados. As evidências eram claríssimas mas ele não as enxergava porque elas o contrariavam. Só via as possibilidades, porque estava vivendo no mundo das possibilidades onde tudo o que é bom também é possível. Ele estava fadado a morrer auto-hipnotizado, fatalmente acreditando em ilusões até o fim dos seus dias, vítima de si mesmo. Porém, ao longo da linha confusa do tempo, encontrou um gatilho. Um amor imenso. Uma rejeição. Uma afirmação do que já sabia. Um tiro certeiro no peito e o fim do sono induzido. Foi impossível negar tudo aquilo. Caiu o seu mundo imaginário. Isto abriu a sua própria Caixa de Pandora, libertando assim os seus demônios aprisionados. Ao revelar tudo isto há muito escondido, aqueles dias negros se tornaram um pouco mais claros. Não tratava-se apenas de uma garota, tratava-se de tudo. Durante muito tempo eu havia insistido em compreender as pessoas, suas motivações, seus anseios, seus medos e tudo mais o que as envolve. Eu nunca havia ponderado o perigo implícito. Eu não imaginava que o outro é um espelho. Eu vos digo o que tenho hoje como uma profunda verdade: a natureza humana é uma caixa preta que não deve ser aberta nunca, jamais. Uma vez que tenhamos visto o conteúdo escuro dela, estaremos condenados a não acreditar em mais nada. Não há volta para o que eu vi, eu sei. O mundo real também é o mundo das consequências. Eu pensei que nunca mais amaria como amigo, como amante, como nada. Pensei que a vontade de conviver havia pra sempre me abandonado. Mas então veio o sétimo dia.
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