11 de agosto de 2011
[...Fim / Mentira / Covardia / Entrega] Eu já vinha desenvolvendo algumas idéias. Sem muitas delongas, eu era um sujeito que pensava e pensava muito. Parecia um para-raio que atrai e potencializa tudo aquilo que o cerca. Demasiadamente sentimental e introspectivo, muitos diriam. Talvez sim. Digo isto porque é preciso esclarecer: apesar de admirar a normalidade, eu nunca fui e nem serei atraído por ela. Um sujeito normal provavelmente nunca chegaria ao buraco que eu cheguei. Nunca teria visitado todos aqueles lugares horríveis dentro dos outros e de si mesmo. Porém, é certo dizer que, uma vez lá, o sujeito normal nunca sairia e viveria para sempre aprisionado. Assim os deixo sob aviso. Haviam se passado sete dias depois do início. Naquela noite eu estava sentado em meu quarto, trancado sozinho, remoendo tudo dentro de mim. Lembre-se de que eu havia visto a face de todo o mal e vivido dois longos séculos preso, por ele sendo torturado. Reclinei-me na cadeira, apoiei os pés sobre cama e olhei para o teto. Era pra um forro de madeira envernizado que eu olhava. Eu estava sem camisa. A janela semi-aberta projetava um ar frio que contrastava com o calor da noite enluarada. Fechei os olhos e respirei profundamente. Pensei em tudo, tudo mesmo. Tive por um breve momento uma visão ampla daquilo que me cercava, do que havia acontecido, de tudo o que eu passara naquele parque e até mesmo antes, quando perdi a minha alma. De repente, o inesperado. Senti meu interior se transformar em um mar azul e límpido que se acalma. Senti uma brisa e um arrepio. Abri os olhos. Aquele havia sido o segundo gatilho e eu olhava novamente para a vida. Eu tinha sido completamente destruído e agora começava a me reconstruir. O instante que se seguiu foi incrível. Primeiro eu compreendi e aceitei tudo, até mesmo o que não concordava. Inexplicavelmente eu passei a gostar das pessoas do jeito que elas são e com as escolhas que fazem. Não sei porque, eu simplesmente as amava. Eu sabia que meu amor não era correspondido e que a incontestável natureza humana continuava a mesma, mas eu não me importava. Eu sabia quem eram os outros mas sobretudo eu sabia quem era eu mesmo. Não se confundam com os fatos. Não entrei novamente em estado de auto-hipnose, tentando escapar do inevitável. O que eu vivi não tem volta e está gravado profundamente. Jamais esquecerei aqueles séculos pois eles me fortaleceram e ensinaram. Ainda vivo e revivo momentos tristes com frequência, acontece que agora eu choro. O que eu quero dizer é que ali, sentado no meu quarto, no sétimo dia, eu fiz as pazes com Deus e com o Diabo. Não sei explicar direito, mas naquela noite eu transcendi algo. Deixei sair pra fora tudo o que eu havia aprisionado entre sorrisos e lágrimas. E foi por isto eu escrevi estes textos: pra me libertar e pra libertar estas palavras. Talvez finalmente eu tenha compreendido Nietzsche quando ele disse que "é preciso ser superior à humanidade pela força, pela grandeza de alma". Sim Nietzsche, eu te compreendo. É preciso ser superior pela grandeza de alma. E a vida continua.
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