5 de agosto de 2011
[Início...] Eu nem sabia que dor assim poderia existir. Em um instante eu estava pasmo, olhando fixamente para o que agora eu parecia ver. Senti minha respiração parar. Fiquei completamente pálido e meus lábios adormeceram. Em toda a minha face, uma leve sensação de formigamento. A falta de ar começou a me sufocar, me esforcei para mecanizar uma respiração profunda e pesada. Não foi o suficiente para afagar meus pulmões. Era o meu coração que estava inchado, preenchendo quase todo o peito. "Assim deve ser a morte". Não acreditei. Olhei novamente e encontrei as mesmas palavras. Li novamente e encontrei o mesmo significado. Durante uma pequena fração de tempo eu revivi inúmeros dias. Vi hasteado em minha frente tudo o que eu sempre havia ignorado. Revivi de olhos abertos todos aqueles momentos e ao final encontrei a incontestável natureza humana, nua e escancarada em cada ato. Devo então ter pronunciado algo sem sentido, movido pela torrente de pensamentos. Mais uma respiração abafada. Meu olhar fixo, tentando enxergar. Uma neblina densa havia tomado conta de toda a sala. Tentei disfarçar dizendo algo, mas perdi a voz. De repente percebi que não escutava mais nada. Pensei que devia chorar, mas eu não tinha lágrimas. Este tipo específico delas, Deus não havia inventado. Em algum momento da criação ele deve tê-las julgado horríveis e desnecessárias, mas eu precisava. Levantei-me e saí dali rápido, cambaleando até o banheiro. Eu estava no décimo andar. Grandes janelas abertas me convidavam. Caminhei até uma delas. Apoiei as duas mãos na borda, que não era alta. Debrucei-me levemente e olhei pra baixo. "Dez andares". Senti náuseas. Dei um passo para trás. Foi então, neste exato momento, que a minha alma se jogou daquela janela, sem ao menos hesitar. Eu estava morrendo e não tinha lágrimas e tudo aquilo que eu estava sentindo ela não podia aguentar. Ficou frio quando deixou o meu corpo e se projetou em um átimo. Braços à frente, um salto certeiro e lá se foi. Fiquei boquiaberto, embasbacado. Quando se distanciou daquele prédio em linha reta, um ou dois metros à frente, a escutei dizer: "É o fim ali embaixo, é o fim ali embaixo". Pude sentir o quanto ela desejava aquele pedaço gelado de concreto. Depois disto foi um momento interminável, o início do declínio, da queda tão esperada. Mas não houve queda. O ar não era suficientemente denso e ela começou a flutuar. Sem entender, balançou-se pra todo lado. Não adiantava, não caía, apenas subia em uma parábola. Subia e subia, rumo ao espaço. Agucei os olhos para vê-la desaparecer, e mais nada. Segurei forte a borda da janela, num sobressalto. Ela havia se enganado porque ficou muito leve sem toda a minha mágoa. Eu a vi ir embora como quando se liberta um pássaro, e ela se foi livre, por este mundo afora. Senti o meu coração pesado. E quem disse que um homem não pode viver desalmado? Eu vivo, pois foi desta maneira que eu perdi a minha alma. Hoje, talvez ela vague em algum lugar. Ou, pensando bem, não sei qual de nós dois vaga. O fato é que estamos melhor depois de separados. Eu sou um homem menos triste sem uma alma aprisionada. Ela finalmente é feliz, sem um coração despedaçado.
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