Era uma escola ou talvez algo assim. Ensinavam música ou talvez algo assim. Havia uma janela no andar suspenso onde nos amontoávamos, escorados em uma mesa branca esquecida rente à parede. Estávamos em uma sala pequena, cercada por divisórias frágeis. Era noite e era possível ver o horizonte ao longe, por cima daquela fração da cidade. Víamos árvores e telhados, tudo bem escuro mas distinguível na forma de silhuetas, contrastando com as nuvens iluminadas por uma lua que não enxergávamos. Vestíamos camisetas verdes de um tom vivo, destas como se costuma ver em caixas de supermercado. Não parecíamos ser alunos, talvez fossemos funcionários em um momento de descanso, cerca de oito ou dez pessoas. Eram jovens, na maioria moças, alguns rapazes. Eu próprio era mais jovem do que sou hoje. O sorriso, a conversa, era tudo tão confortável. Mas eu sabia que dentre aqueles rostos havia apenas um sobre o qual a minha atenção orbitava. Mesmo quando eu olhava pra longe naquela janela, era o único rosto que eu via. Sob todos os detalhes dela eu me dobrava, me entregava sem resistir. Ela estava bem próxima, do meu lado esquerdo de onde escorávamos. Na nossa frente o vidro transparente da janela. O sentimento era aconchegante, aquela sensação parecia vir de um lugar já antes visitado. Ao lado dela pairava em mim a certeza de que haveria apenas um caminho dali em diante, de me sentir como a água de um rio que não escolhe pra onde ir. A atração por ela me deixava a sensação de estar voltando pra casa. De alguma forma eu sabia que era recíproco ou que, se ainda não fosse, inevitavelmente viria a ser. Era como se eu tivesse nascido e vivido até aquele momento apenas para estar ali. Eu não sabia o seu nome, eu não sabia nada além do que aquele sentimento materializado no meu corpo recitava no meu ouvido. Apesar de já ter estragado muitas coisas na vida aquilo seria grande demais, belo demais, sincero demais até para eu conseguir destruir. Ao seu lado eu não me sentia capaz de ser nada que não fosse, apenas e sinceramente, eu. Não havia medo, apenas o total e completo pertencimento. Poemas, livros, músicas... tudo seria muito enfadonho. Mesmo em um sonho, ela e eu éramos apenas reais.
De repente, uma luz no horizonte se formando a partir da linha em que os telhados encontravam o céu. Começou a crescer como se algum tipo de gás estivesse sendo assoprado pela terra em direção às nuvens. Brilhava como se fosse uma aurora austral. Cada vez mais e mais, todos perceberam. "O que é aquilo?" era a pergunta inevitável. "O que está acontecendo?". Ao mesmo tempo em que as cores lembravam o brilho que envolve bolhas de sabão, sabíamos que estávamos em perigo. Houve muita agitação. "O que é aquilo?". Avisaram aqueles que estavam em outras salas e logo chegaram na janela. "Parece ser algum gás, vai explodir". Olhei para ela, parecia perdida e assustada, foi a primeira vez que os nossos olhares decididamente se encontraram. Os nossos olhos uns nos outros pareciam um lugar comum, o bosque entre os nossos dois mundos. Eu daria tudo por mais tempo naquele lugar mas estávamos em risco. Busquei a mão dela como quem diz "Vem comigo, vamos sair daqui". Nada precisava ser falado. A coisa que mais me marca e me traz uma profunda tristeza é não continuar sentindo eternamente o toque entre as nossas mãos, tão vívido na lembrança. Dói saber que em algum momento não estará mais aqui. A pequena mão dela estava fria e procurando acolhimento, procurando um rumo. Percebi que, quando eu estendi a mão, a dela já vinha ao meu encontro. Era como se só existisse o caminho que as unia. Marchei em direção às portas e em direção ao lado oposto da construção em que estávamos, nos afastando da janela. Por onde passávamos, algumas pessoas continuavam em seus computadores, trabalhando, desapercebidos de tudo o que acontecia. Mas a agitação começava a crescer e todos pareciam acordar para o que estava acontecendo. Era como se um sentido primitivo de sobrevivência despertasse para um grande risco. Não esperamos por nada e nem pelos outros, só corremos. Chegando na parede oposta, saímos direto pela porta que dava para uma espécie de estacionamento. No fundo havia a noite e o sentimento foi de desconsolo quando percebemos que, no breu noturno daquele pátio mal iluminado, a luz também se fazia presente. Ao longe mas presente. Algumas outras pessoas saíram pela porta e foi possível ver a desorientação nos seus rostos. "Para onde ir, o que fazer?". Eu não sei de onde aquela luz vinha mas realmente havia a impressão lúcida de que haveria uma explosão. Era preciso nos proteger. "Logo agora? Não acredito, precisamos viver. Eu quero que isto dure". Puxei ela de volta pela porta e encontramos um cômodo que parecia mais seguro. Entramos nesta sala completamente vazia. Corri para o canto oposto do cômodo, luzes apagadas, e sentei de costas pra parede puxando ela para junto de mim. Pela porta aberta entrava alguma luz e era possível ver pessoas correndo lá fora. Ela estava sentada de frente pra mim e tinha muito medo. Puxei a sua cabeça para junto da minha e encostamos as testas quase como uma súplica, olhando para baixo e esperando pelo pior. Percebi então que eu vestia um moletom azul com um capuz que prontamente puxei sobre as nossas cabeças como se aquilo fosse nos proteger. Envolvi ela nos meus braços o máximo que pude e esperamos.
A explosão não veio. Estranho. Não devia ter passado nem um minuto quando de repente sabíamos que estávamos fora de perigo. Lá fora as pessoas comentavam, conversavam e ninguém sabia o que havia acontecido. A luz tinha ido embora tão misteriosamente como veio. "O que houve? Vai acontecer novamente?". O tempo passou e ninguém sabia o que fazer. Claro, continuávamos juntos, não queríamos nos separar. Oscilávamos entre os sorrisos nervosos de quem acabara de viver algo inexplicável e os olhares desajeitados dos jovens que sabem que acabaram de conhecer um amor. Mas "amor" era uma palavra completamente inapropriada naquele momento, tanto em contexto como em significado. Não havia palavra para o desejo de viver para sempre nos seus olhos, na sua presença, no toque das suas mãos. Amor era obsoleto. Era preciso ir para algum lugar, talvez a luz tenebrosa voltasse, eu não podia correr o risco de não a ver novamente. Nas cercanias, parecia estar se instalando algum caos. Algumas pessoas correndo, outras dirigindo perigosamente. Eu alugava um pequeno quarto ali próximo, era a opção mais óbvia para nos protegermos já que ela morava longe. Não seria seguro ela se deslocar pra casa. Chegamos no meu lugar. Simples demais mas diante de tudo o que havia acontecido não fazia diferença. De repente entendemos que desde o início de tudo isso era a primeira vez que teríamos tempo de nos olhar, de conversar. O nervosismo era real, era recíproco. E foi ali que acordei.
(Eu me vi em uma das muitas situações que não consegui resolver na minha vida. A cara dela quando percebeu que não ficaríamos juntos, tentando disfarçar a decepção... Os meus olhos procurando um desfecho, a voz sufocada sem conseguir falar... Onde tudo aquilo terminaria? Eu jamais saberei.)
Acordei com uma tristeza imensa, com um sentimento profundo de melancolia. Se terminar esta vida significasse viver para sempre naquele sonho, não me pareceria um desenrolar tão ruim. Talvez eu seja realmente uma pessoa com sérios problemas.
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