17 de outubro de 2011

Assim eu acordo. Sete horas da manhã e nenhum motivo para acordar. Meus olhos vermelhos, minha pele suada. Talvez tenha sido por conta de algum pesadelo destes que eu nem me lembro. Já faz tempo que eles começaram a se repetir e eu parei de me importar. Assim eu acordo, com os meus olhos ardendo. Fossem outros tempos eu continuaria deitado mas agora eu não consigo, agora eu não posso. Assim que acordo eu me levanto e troco alguns passos desajeitados até o banheiro. Um banho rápido na água fervente que custa sair do chuveiro, escovo os dentes, olho pra mim mesmo: "Que figura deprimente". Assim eu acordo às sete horas de uma segunda feira. "Hora do colírio". Dois deles, um de frasco azul e outro de frasco branco, cinco minutos de diferença entre um e o outro. Eu sempre me perco nos minutos, sempre. Caminho pesarosamente até a cozinha, estou sem fome, tomo apenas leite. O gosto está estranho mas mesmo assim eu o bebo, sem pressa, sem pressa... "Tomara que eu nunca termine este copo". Pela janela, dou uma olhada rápida no dia nublado lá fora: "Muito cedo, são sete horas". E assim eu acordo. Volto para o meu quarto, sento-me por algum tempo e olho à esmo para os móveis, os livros na prateleira. Ligo o velho notebook surrado que demora uma eternidade para iniciar. "Ele sempre foi assim, sempre". São sete horas e a internet está tão vazia agora. Tão vazia quanto ontem e antes, antes... e até antes mesmo. Olho pro relógio, sete horas. São sete horas desde que eu acordei, e assim eu acordo. Ligo o estéreo quebrado que só reproduz som em uma de suas duas caixas antigas e desligo a luz para tomar a minha dose diária de Pink Floyd:  "Wish You Were Here... O melhor álbum de todos os tempos, o melhor mesmo". Acabei de acordar mas estou curiosamente cansado, deito-me. A luz opaca do velho note me permite ver algumas silhuetas na penumbra do meu quarto. Me descubro olhando para o teto acima da minha cabeça, para um forro de madeira envernizada: "Verniz escuro, marcas na madeira, marcas...". Não sinto fome, não sinto sono,  não sinto nada. "How i wish, how i wish you were here...". Hoje eu não trabalho, amanhã eu não trabalho. Não sei se quero mais trabalhar. "We are just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year...". O que eu faço agora? Vontade estranha de ficar aqui parado. Vontade estranha de sair correndo, de fazer algo, de não existir. Não preciso olhar para o relógio, eu sei que continuam sendo sete horas pois assim o é desde que eu acordei, e assim eu acordo. "Running over the same old ground, what have we found?...". O que eu vou fazer? Vou ficar aqui deitado e terminar minha dose diária. Não importa quanto tempo eu demore, não tem nada me esperando lá fora. Pensando bem, talvez até o mundo acabe em alguns instantes. "The same old fears...". Eu queria ter dormido mais esta noite, eu queria não ter acordado, eu queria ter continuado naquele pesadelo mas, como sempre, pouco importam minhas vontades. Sete horas, segunda feira e eu acordo exatamente igual a todos os dias, nublado como uma tarde de novembro. "Wish you were here, wish you were here...". E agora? "Agora meu amigo você acorda, e começa tudo novamente".