Naquela noite ele acordou com um desejo muito especial de não ter acordado. Desejava continuar dormindo por mais alguns anos ou até mesmo séculos se fosse necessário. Não era o desânimo que o incomodava mas o completo descontantamento com tudo o que havia acontecido nos últimos seis meses. Esta última semana havia sido particularmente difícil. As festividades de final de ano chegaram em péssima hora. Passara o natal de mal humor, na companhia de alguns amigos, tendo a legítima impressão de não ser o melhor dos convidados. Escondeu uma garrafa de tequila sob o casaco e saiu em silêncio antes da ceia. "Santa ceia", era assim que a chamavam e ele costumava pronunciar este nome com uma boa parcela de sarcasmo. Mas já fazia algum tempo que o sarcasmo não lhe divertia. Preferia caminhar pelas ruas escuras e frias calado pois para ele não havia motivo pra comemorações. E nesta noite em que acordava continuava preferindo a solidão. Por alguns minutos escutou o burburinho das pessoas conversando nas dezenas de apartamentos sobre os quais ele morava. Nos outros prédios ao longo da rua não era diferente. Mais um ano acabava. "Mais um maldito ano", era o seu pensamento.
- Inferno de reveillon - murmurou ciente de que ninguém iria escutar. Talvez o seu gato.
Sentou-se na cama e olhou para os lados. Nem sinal do gato. O apartamento estava escuro. A pouca luz visível penetrava das grandes janelas que ficavam de frente para a rua. Elas estavam todas escancaradas e as cortinas negras balançavam. O vento que entrava, vez ou outra arremessava uma das folhas que repousavam sobre mesa. Desenhos talvez, poemas talvez, pedaços de nada. Elas dançavam graciosamente no ar e projetavam sua sombra como se fossem corvos famintos, depois se ocultavam em algum lugar vazio do seu imenso quarto. O frio era intenso no último dia do ano. Há alguns anos este clima em Goiânia seria impensado. A previsão para hoje era de noite inóspita, com fogos de artifício e uma boa chance de neve. A felicidade alheia pairava no ar e cheirava à champanhe. Ele quase esboçou um sorriso por entre os lábios ao sentir aquilo.
- Champanhe... Uma bebida muito fraca.